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As autoridades da União Europeia violaram as suas próprias regras e descartaram evidências de cancro para manterem o glifosato no mercado



Um novo relatório do toxicologista Dr. Peter Clausing, mostra que as autoridades da UE violaram as suas próprias regras e desconsideraram as evidências de que o glifosato é cancerígeno, para chegarem à conclusão de que o produto químico não causa cancro.

15 Agosto, 2017 por Edward Morgan 
As autoridades da UE chegaram à conclusão de que o glifosato não é cancerígeno, desconsiderando e eliminando as evidências de cancro em experiências com animais, violando as directrizes que devem orientar o seu trabalho, de acordo com um novo relatório [1] do toxicologista alemão Dr. Peter Clausing.

O relatório mostra pela primeira vez que o glifosato deveria ter sido classificado como cancerígeno, de acordo com os padrões actuais da UE. Isso significaria uma proibição automática ao abrigo da legislação da UE sobre pesticidas. No entanto, as autoridades da UE ignoraram e violaram esses padrões, permitindo-lhes chegar a uma conclusão de que o produto químico não é cancerígeno.

Comentando as suas descobertas, o Dr. Clausing afirmou: 

“O que mais me surpreendeu foi a forma como óbvia e amplamente as autoridades violaram as suas próprias regras. Isso deixou-me com raiva. As autoridades devem ser responsabilizadas pelo seu fracasso”.

O Dr. Clausing acrescentou:

“As evidências de que o glifosato é cancerígeno são tão esmagadoras que o mesmo deve ser banido”.


As autoridades na linha de fogo são o Instituto Federal Alemão de Avaliação de Risco (BfR) (sendo a Alemanha o Estado-Membro com a responsabilidade da aprovação do glifosato na UE), a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) e a Agência Europeia dos Produtos Químicos (ECHA).


A conclusão das três agências, de que o glifosato não é cancerígeno, contrasta com a da Agência Internacional de Pesquisa para o Cancro, da Organização Mundial da Saúde (IARC), que em 2015 classificou o glifosato como “provavelmente cancerígeno para os seres humanos” com base em evidências “suficientes” em animais e “evidências limitadas”em humanos. O IARC é reconhecido pela sua política de independência rigorosa e pesquisas de elevada qualidade.

O novo relatório mostra que o BfR, EFSA e a ECHA não conseguiram aplicar as orientações relevantes da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico, que estabelece padrões internacionais de testes de produtos químicos) e da própria ECHA, e indica que eles manipularam factos e dados para chegarem à conclusão de que o glifosato não é cancerígeno.

A Dr. Clausing afirma que está preocupado que as acções das autoridades que possam colocar a saúde pública em risco. Ele afirmou:

“Na Europa, as incidências de cancro duplicaram e triplicaram nas últimas décadas, dependendo do tipo de tumor. Estou preocupado com o facto de que o uso exponencialmente crescente do glifosato tenha contribuído para isso, e continuará a contribuir se não for tomada nenhuma ação”.
Comentando as exigências de maior transparência no processo de aprovação de pesticidas, ele acrescentou:

“A transparência é necessária, mas não é suficiente. A transparência sem consequências quando as coisas dão errado é inútil”.


O Dr. Clausing costumava trabalhar como toxicologista sénior na indústria farmacêutica, mas agora é membro do conselho da Pesticide Action Network Germany.

O novo relatório foi publicado pela GLOBAL 2000 (Amigos da Terra, Áustria).

De acordo com a editora do relatório, Claire Robinson, da GMWatch, uma ONG britânica que chamou a atenção para os riscos do glifosato:

“O Dr. Clausing escreveu um desafio abrangente e incisivo às avaliações das autoridades da UE sobre o glifosato. Entre 19 e 20 de Julho, os representantes dos Estados membros da UE são convidados a discutirem a reaprovação do glifosato na reunião do Comité Permanente de Plantas, Animais, Comida e Alimentação(ScopaFF).”


“O autor e os editores do novo relatório convidam os representantes e a Comissão Europeia a lerem-no e a responderem antes que essa discussão tenha lugar. Seguirem a ciência parece deixa-los com apenas um desfecho possível: recusarem a renovação da autorização do glifosato”.

Principais conclusões do relatório:
De acordo com o regulamento da UE sobre pesticidas, uma substância deve ser considerada cancerígena se dois estudos independentes realizados em animais demonstrarem uma maior incidência de tumores nos animais expostos.
No caso do glifosato, pelo menos sete de doze desses estudos de longo prazo encontraram uma maior incidência de tumores.
Inicialmente, o BfR não reconheceu numerosas incidências tumorais significativas, devido à sua falha na aplicação dos testes estatísticos apropriados, estipulados pela OCDE e pela ECHA. A BfR dependia, em vez disso, de testes estatísticos aplicados pela indústria, que indicavam apenas um efeito carcinogénico significativo do glifosato, para um único tipo de tumor num único estudo.
Devido à monografia do IARC sobre o glifosato, publicada em 2015, o BfR reavaliou a sua própria avaliação e reconheceu as incidências significativas, acima mencionadas, em sete dos 12 estudos.
No entanto, o BfR – e a EFSA e a ECHA, que se basearam o trabalho de base do BfR – falharam em encontrar mais oito associações a tumores, que foram recentemente identificadas pelo Prof. Christopher Portier, ex-director associado do Instituto Nacional de Ciências da Saúde Ambiental (NIEHS ) nos E.U.A.
O BfR, EFSA e a ECHA fizeram uma selecção de estudos tendenciosos para as suas avaliações do glifosato. Eles consideraram na íntegra dois estudos que não descobriram que o glifosato causava linfomas malignos – mas que continham deficiências óbvias que deveriam ter sido excluídas da avaliação. Em contraste, eles minimizaram um estudo que descobriu que o glifosato causava linfoma maligno, citando uma suposta infecção viral nos animais – para a qual não existem provas, conforme admitido pela ECHA. A única fonte para esta alegada infecção é Jess Rowland, ex-funcionário da EPA [Agência de Protecção Ambiental dos EUA], que fez o pedido numa teleconferência com a EFSA. Uma investigação confirmou que a EFSA não tinha provas da alegada infecção para além da observação de Rowland. Os emails internos da Monsanto divulgados num processo dos EUA sugerem que Rowland era um ajudante prestável da empresa química, e que se vangloriou de que ele deveria “obter uma medalha” se conseguisse matar a investigação de outra agência sobre os efeitos do glifosato na saúde.
O BfR, EFSA e a ECHA desvalorizaram um tipo de análise estatística relativamente à outra, argumentando que o glifosato não era cancerígeno porque o significado na incidência de cancro só era alcançado num tipo de teste, e não no outro. Isso viola a orientação da OCDE, que afirma que a significância em qualquer teste é suficiente para rejeitar a noção de que os cancros ocorreram por acaso.
O BfR, EFSA e a ECHA violaram as restrições sobre o uso de dados históricos de controlo (os dados não tratados e compilados de animais de controlo em estudos anteriores) estabelecidos pela OCDE, para descartarem os efeitos cancerígenos do glifosato.
O BfR, EFSA e a ECHA evitaram mencionar as relações dose-resposta que reforçaram as evidências de que os efeitos tumorais foram causados pelo glifosato e não aleatoriamente. Isso sugere que as autoridades tentaram encobrir as evidências dos efeitos cancerígenos do glifosato. 

Notas
1. Peter Clausing (2017). Glyphosate and cancer: Authorities systematically breach regulations. Published by GLOBAL 2000 (Friends of the Earth Austria). http://www.gmwatch.org/files/GLO_02_Glyphosat_EN.pdf
Descarregue o relatório

Descarregue o novo relatório aqui: GLO 02 Glyphosat EN.pdf

O relatório completo em inglês e o resumo em vários idiomas diferentes, incluindo o inglês, estão disponíveis aqui: https://we.tl/0z7wOISv9m

Fonte: http://www.gmwatch.org/en/news/latest-news/17724-eu-authorities-brushed-aside-evidence-of-cancer-to-keep-glyphosate-on-the-market-new-report

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